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19 de Agosto de 2017

A lua de mel acabou! A vida de um motorista Uber

O lado da história que os usuários não querem ver.

Geison Paschoal, Advogado
Publicado por Geison Paschoal
há 7 meses

A lua de mel acabou A vida de um motorista Uber


Entrei no carro de Gabriel*. Era uma tarde de sexta-feira em Salvador em dezembro. Já dá para imaginar como estava o trânsito na capital baiana, conhecida por ter um dos piores (senão o pior) trânsito do Brasil.

Não era uma corrida longa, mas houve tempo suficiente para ele resumir seus 4 meses de trabalho na Uber.

“Fiquei desempregado e a Uber foi uma oportunidade que veio em boa hora. Fiz todo o cadastro e comecei a trabalhar com o carro do meu pai”. Conta o jovem que é formado em Contabilidade.

De fato, a imagem que se tem da Uber é que ela chegou num momento de uma das piores crises do país e gerou inúmeras oportunidades de trabalho. Só que não é bem assim:

“Comecei a trabalhar na metade de setembro e não pude saber direito se estava ganhando bem. Foi só no mês de outubro que pude sentir a realidade”.

A propaganda da Uber sempre foi muito positiva, especialmente pelos relatos dos usuários, afinal, era um serviço que estava revolucionando o transporte de passageiros, e não deveria ser diferente para os motoristas, pois a empresa ofertava ganhos de até R$ 7.000/mês.

Mas o jovem continuou a dar detalhes da sua experiência:

“No meu primeiro mês de trabalho completo, eu fiz de valor bruto R$ 2.300,00”.

O que parece um bom número para quem estava desempregado. Mas quando você começa a descontar as despesas de combustível, limpeza e cortesias, esse valor cai pela metade.

“Quando eu vi, ficou na minha mão um pouco mais de mil reais”. Foram seis dias de trabalho por semana, 12 horas por dia. “Treze horas em vésperas de feriado”, acrescenta.

Fazendo a conta, aos 26 dias que trabalhou, por cada uma das 312 horas recebeu 3,68 reais por hora. Não há subsídio de férias, 13º salário, auxílio refeição, descanso remunerado então nem pensar. Em caso de doença, não recebe nada. “Se não rodar na rua, não ganha nada”.

Por cada viagem feita, a Uber ganha 25%. Apesar de trabalhar o horário de quem tem um emprego e meio, Gabriel ganha menos que os 880 reais de salário mínimo fixados pelo Governo — que subiu para R$ 937 em 1º de janeiro de 2017. Mesmo assim, o jovem mantém o sorriso, com o entusiasmo de quem só agora começou um novo desafio. “Se bobear eu ainda não conheço os melhores lugares, onde há mais chamados, mas geralmente são shoppings e aeroporto”, arrisca.

Mas além de tudo isso, os motoristas enfrentam um grande desafio. Em Salvador, por exemplo, a atividade dos Uberistas não está regulamentada pela prefeitura, que por conta disso, monta 'emboscadas' perseguindo os motoristas e apreendendo os seus carros. “Depois que chegou o verão, a prefeitura e a polícia militar estão armando emboscadas para apreender os motoristas Uber no aeroporto, shoppings e rodoviária. Eles fazem um chamado como um passageiro normal, e quando você chega lá, tem um circo armado”.

A situação ficou tão séria, que os agentes da superintendência de trânsito estavam confiscando os celulares dos motoristas e até mesmo a chave dos veículos, que eram rebocados e levados para o pátio municipal, só saindo de lá depois de pagar uma multa de R$ 2.500,00 na primeira e de R$5 mil na reincidência. “A Uber até paga essa multa, mas ninguém gosta de ter essa dor de cabeça”, conta Gabriel.

Além de toda essa dificuldade, os motoristas são avaliados por tudo que fazem na direção. Francisco* tem 7 meses de Uber e conta que se deu bem no início. Diretor de comunicação em uma grande construtora, foi demitido por conta da crise. “Essa Operação Lava Jato acabou com milhares de postos de trabalho, mas ninguém fala muito nisso”.

Em novembro de 2016, Francisco respondeu a um anúncio que pedia motoristas Uber. "Comecei a trabalhar às 8h30 da manhã, parei meia hora para almoçar e só desliguei o carro às 20h30 da noite". As corridas somaram 180 reais no total, hoje Francisco trabalha no mesmo horário e não consegue faturar mais do que R$ 80 reais. E ao fim das 12 horas de trabalho, terá de fazer o desconto de 25% da Uber e do combustível gasto. “Já cheguei a dirigir 16 horas seguidas, tenho consciência que é perigoso para as pessoas que transporto. Mas pela minha idade eu não tenho grande chance de voltar a ter um emprego como tive no passado. Não tenho escolha”.

Os relatos em grupos de redes sociais e aplicativos de mensagem mostram que, nos últimos dois ou três meses, o número de veículos disponíveis aumentou bastante. “Quando eu comecei, o aplicativo tocava toda hora, as vezes até emendava uma corrida com outra. Agora, chego a ficar uma hora ou mais sem que a 'cornetinha' toque.”

E basta abrir o aplicativo de passageiros que é possível notar o aumento. Em certas localidades é possível ver até 10 carros no mesmo bairro.

Recorde de Reclamações de Passageiros

Fato recente é que a Uber passou a figurar entre as principais empresas reclamadas no site ReclameAqui. Vários relatos de carros velhos, sujos, motoristas mal educados..

“Antes os carros eram novos e ofereciam balinha e água. Hoje eu só vejo carros velhos e motoristas perdidos” Conta Gleici Rezende, usuária do aplicativo Gleici. “Nem o sistema de avaliação está resolvendo isso, piorou muito”. Completa a jovem.

Pelo visto, os dias floridos da Uber no Brasil estão com os dias contados. São frequentes as manifestações de motoristas parceiros pelo Brasil lutando por melhorias e mais segurança. Alguns optaram até mesmo por ingressar na justiça pleiteando direitos trabalhistas. “Para os passageiros tá bom demais. Pagam barato e vão para onde quiserem. Mas e para nós? Ninguém pensa que o motorista também é pai de família e tem contas pra pagar. Nem a Uber”.

*Os nomes são fictícios. Os motoristas parceiros não quiseram se identificar, por medo que as declarações pudessem prejudicar a parceria com a Uber.

3 Comentários

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Triste ver que isso está acontecendo. continuar lendo

“Essa Operação Lava Jato acabou com milhares de postos de trabalho, mas ninguém fala muito nisso”

A família do Sr. Francisco tem ele todos os dias, infelizmente os familiares da Hanna Cristina Santos, incluindo a sua filha que a viu morrer esmagada em cima do volante onde ganhava o sustento, não a tem a mesma sorte. continuar lendo

Na verdade os motoristas que se prestam a isto deveriam fazer uma análise mais apurada do investimento.

Pelo artigo uma dúvida minha foi sanada, ou seja, se havia apoio legal que diferenciasse o motorista atender pelo Uber ou colocar a cara para bater e partir para uma empreitada "solo". Ou seja, pelo que está ai assumem o risco das multas pela atividade não regulamentada.

Mas e se o motorista for assaltado?

Óbvio que o Uber sem essas duas exceções já é um péssimo negócio já que se está alocando um bem de alto valor agregado, que gera despesas e exige manutenção em troca de muito pouco. continuar lendo